segunda-feira, 11 de abril de 2022

O misterioso Esquema do Paulo Sousa

Como eu disse antes, ia ter que fazer um tutorial para explicar o esquema do Paulo Sousa, porque geral, inclusive gente que eu respeito muito, tem feito colocações muito equivocadas a meu ver. 

Eu não sou estudioso do tema, sou pitaqueiro, e na boa, só passei a me interessar a partir de 2019, porque o Jorge Jesus fundiu o pouco que eu sabia e fiquei realmente curioso para entender a tática dele. Até hoje não entendo bem (hehehe).

Vou mandar a letra agora, porque o PS flexibilizou o esquema no primeiro jogo da Libertadores, e ontem, no empate com emoção contra o Atlético-GO, manteve a mudanças. Ainda não posso falar bem dessas mudanças, mas pareceu-me que agora ele vai usar na saída de bola ou atacando um 3232 ou 3241 e defendendo um 442 ou um 451. Ainda não sei ao certo, mas com alguns jogos eu tiro minhas dúvidas.

Até o dia 5 de abril, no entanto ele usou quase 15 escalações diferentes no exato mesmo esquema tático. Até então, ele se recusou peremptoriamente a ceder um milímetro de suas convicções. Era um 343 conservador com três zagueiros, dois volantes, dois alas defensivos, 2 atacantes fora da área e com apenas 1 atacante de área. Vamos à demonstração desenhada! Destaquei mais de um aspecto em cada imagem, e os associei por cores. Usei como demonstrativo o jogo contra o Vasco no campeonato carioca com as imagens dos melhores momentos do Globo Esporte.

P.S. Eu, particularmente, não gosto nem um pouco do esquema original. Vou apenas demonstrá-lo e não tenho nenhuma intenção de defendê-lo.

 

Comecemos pela formação da Defesa. Era uma linha de 3 absoluta. 

E o padrão se repete.


Novamente.


Ai, mas eu vi uma linha de 4!!! Na minha opinião é engano seu, observe.

Vou tentar explicar como eu entendo que se forma essa falsa linha de 4, no esquema original dele.


E o ataque? Com 3, dois fora da área e 1 dentro da área, sendo, praticamente, os responsáveis por toda articulação ofensiva, visto que os alas se preocupam primeiro em defender e depois em apoiar.

Aí segue numa rara mudança de posição com os alas. Talvez na cabeça do Romântico (PS) isso deveria ocorrer sem para, mas não ocorre e acho difícil ocorrer.

Aí, para sacar a lógica da movimentação geral, aplicado ao esquema e dentro dos princípios do jogo posicional, vou tagarelar numa falha de recomposição da zaga.



E por fim, tentando costurar toda a lógica do esquema numa situação defensiva numa imagem só, ou quase isso:


Então, é um esquema falsamente ofensivo, que tem mais preocupações e falhas defensivas do que agressivas. Tem posse de bola e controle de território, mas tem baixa penetração e cria uma quantidade de chances de gol inferior ao esperado. Falta velocidade, falta criatividade e falta jogador polivalente. Não considero adequado ao elenco e o PS não parece preocupar-se em conhecer o elenco. Funciona muito na lógica de que os jogadores se adaptam ao esquema dele. É um erro. Vou colocar aqui um comentário do @ericfaria74 ao qual eu concordo de maneira integral:


 
E é isso. Agora é aprender direitinho as mudanças que ele implementou.


P.S. Seria pedir demais? Acho que sim...






 



domingo, 10 de abril de 2022

Basófia

 Parece que as coisas não passam, como se não acontecessem.

Como a revoada das folhas ao vento solto trazendo chuva,

pois como era dantes, retornam ao solo.

Besteira minha conotar sentido para aliviar o torpor de sentir depois,

para esmaecer a dor que antecipei e que esqueci no tempo.

Viver na sanha de contar passado, esquecer o agora e defender-se do futuro.

Quero sonhar seguro, um futuro que não chega, sem as dores que não passam, porque são parte de mim.


Évio Gianni


Autor desconhecido


sexta-feira, 18 de março de 2022

Vamos lá. “Era” Paulo Sousa

Após mais de 60 dias de trabalho e 10 jogos da equipe na temporada sobre seu comando, já tenho algumas compreensões e uma ou outra convicção sobre o trabalho dele, e sobre o que poderá ser.

Lamentei a contratação. Dos nomes ventilados, seria minha última opção. Pela imprensa e entrevistas dos diretores um dos critérios mais destacados para a escolha foi a vontade expressa de treinar o Flamengo. É um critério relevante, mas não entra na minha cabeça ser o determinante. Os principais critérios devem ser técnicos.

Isso me faz imaginar que o Clube (Diretoria) não entendeu a correlação de forças e a localização de mercado do Fla no cenário mundial. Nós queremos treinadores de qualidade? Sim. Europeus? De preferência, porque é onde se tem as melhores escolas táticas do mundo e aqui é um deserto tático. Teremos treinadores de qualidade, de 3ª ou até 2ª prateleira da Europa? Sim. Por mais de uma temporada? Não.

É um erro repetido. Depois do trauma da saída do JJ a direção só bateu cabeça. Trouxe o Dome, que é um treinador inexperiente e que joga com jogo posicional, que é ótimo, mas no Brasil não vai ser fácil implementar. Praticamente nenhum jogador brasileiro viu essa tática na base nem no profissional. Nunca treinaram. Essa lacuna é a principal responsável, a meu ver, do fracasso europeu de vários brasileiros. O mesmo não ocorre com os Argentinos, que tem vivência no esquema e consequentemente tem uma adaptação mais fácil por lá. Depois da primeira tragédia anunciada, fizeram a segunda temporada, com o Ceni. Um técnico inexperiente, com longo histórico de problemas de relacionamento, que só fez trabalhos sólidos em times medianos. Sabotou a equipe por muitos meses com invencionices, teimosias e notória inabilidade de montar um esquema que ataque e defenda com a mínima qualidade. Seguiram errando trazendo Renato, que é um técnico eticamente lamentável, e com um esquema repetido, antiquado e sem variação. Tudo isso, fruto da incompetência dos diretores na compreensão tática do jogo.

Escolher um técnico tem de passar pela adequação do elenco com a tática, com o mínimo de continuidade. É uma zona no Flamengo. Começou a gestão do grupo atual com Abel Braga, num esquema 442 defensivo do tempo paleolítico, que foi seguido do JJ num 442 ofensivo com mudança de posição e cobertura de bola, em sequência para um 433 posicional que só sabia atacar, seguido de um esquema 442 Frankenstein perdidaço que ou atacava ou defendia, seguido de um 4231 reativo sem variação e agora de um 343 posicional. Alguém consegue identificar uma lógica de contratação de treinador?

Mas cá estamos. Com Paulo Sousa. E com ele devemos vencer.

Voltando ao Romântico (Paulo Sousa), algumas coisas estão muito nítidas. Ele tem um esquema e não muda o esquema. Ele variou muito a escalação nas partidas, mas só alterou a estrutura do time em situações de desespero, no fim do jogo, para evitar derrotas. Ele tem a filosofia de que o jogador se adapta a tática e não o contrário. Não é vaidoso a ponto de não realizar adaptações, mas a proposta é essa, joga quem encaixar nela. Ele não parece respeitar crachá e nem histórico, apenas desempenho, obediência tática e liderança. Tem fama de ser franco e acessível. Muita coisa boa.

Ocorre que o esquema dele é o 343, varia para 3241 atacando e para 3421 sem a bola e até um 541 defendendo, mas o esqueleto é o 343. Isso nos coloca numa situação peculiar, pois nosso elenco não está dimensionado para um 343 e é mais uma demonstração de inabilidade de nossa direção de futebol. E mais, esse 343 é com jogo posicional. Aí os cabelos embranquecem na minha cabeça, e caem.

Destaco o detalhe relevante de que nosso elenco, para esse esquema, tem zagueiros de menos, laterais demais, volantes de menos e meias e atacantes demais. Quanto aos atacantes, temos mais pelo meio, e menos pelos lados. Mudar o elenco é mais demorado e dispendioso do que escolher um treinador que trabalhe num esquema compatível. Sem falar que não temos tempo de muita recomposição de elenco.

O time está, como esperado, demorado a adaptar-se, e alguns jogadores não estão sendo aproveitados por ter dificuldade nas movimentações. O alívio é ver que o Romântico sabe o que faz. Ele demonstra que entende de como treinar e a equipe comporta-se de maneira equilibrada entre defesa e ataque e tem criado bastante apesar das oscilações. O 343 traz outra novidade, não tem lateral. O torcedor médio está patinando e ainda parece longe de acostumar-se com a ideia, tão boa e útil no familiar 442 (que eu prefiro e defendo). E traz outro detalhe, que me inquieta, não tem meia armador. O meio é formado por 2 volantes em linha ou alternados e dois alas, que como é próprio da posição, tem mais preocupação defensiva do que ofensiva. Ele busca jogadores polivalentes que primeiramente defendam, passem bem e eventualmente faça uma jogada de linha de fundo, preferindo triangulações na quina da grande área, abafar na retomada, e concluir de fora da área em rebotes. As ações ofensivas são construídas pelos 3 atacantes, que são dispostos com um jogador centralizado dentro da área e dois móveis fora da área dispostas a direita e esquerda. Não há debate, o esquema é esse. Doa a quem doer.

E estou pasmo de ver uma galera que é profissional de mídia esportiva não entendendo o esquema e dizendo que o time joga num 442. Que absurdo, que asneira, que ignorância. Eu vou ser obrigado a publicar depois um tutorial demonstrando o esquema porque vamos e convenhamos, é inadmissível a galera se confundir.


Eu acho que esse esquema vai dar certo. Mas lamento por sua aplicação. É difícil explicar meu lamento, mas vou tentar. A Europa não forma meias armadores de qualidade em quantidade suficiente para o seu mercado e nem consegue comprar (é caro) porque a oferta é limitada. Ela também não forma laterais de exceção. E a tática deles adaptou-se a isso, a ter muitos jogadores fortes na marcação e no passe e poucos criadores. Esses meias, em sua grande maioria (embora poucos) foram se tornando meias atacantes, até com a introdução do famigerado falso 9, que virou modinha louca por lá, até porque eles também não formam muitos centroavantes. Então, eles se sobressaem na organização, e não precisam se preocupar com a qualidade porque já é rara, e hoje, já está tão massificado que eles passaram a transformar meias armadores, quando surgem, em atacantes/pontas ou em volantes. Para mim é uma derrota do futebol arte, bem jogado, com muita técnica. Mas o Flamengo 2022 é assim. Tem 3 vagas de ataque, os jogadores que lutem. Gabi, BH, Pedro, Arraxca, Vitinho, Marinho e talvez o Ribeiro junto com os meninos da base vão lutar por uma delas. Só jogam 3, não adianta emputecer.

Obviamente eu faria diferente. Mas o time é do PS. Deixa o cara trabalhar. Acho que vai dar certo, mas não vai dar certo com o encanto de 2019. Podem chamar de viúva à vontade. Sou mesmo. Nunca mais acho que verei tanta beleza em campo. Um time que prioriza o talento técnico, é o que faz o futebol ser o que ele é, lindo! Burocracia sem classe, faz o contrário, é vazio. Mesmo sendo campeão, é só para contar na sala de troféus e comemorar no mês seguinte. Ninguém suspira ao lembrar. Flamengo de 1981/83, 2019, Palmeiras da Parmalat, São Paulo do Telê, seleção de 82, essas sim, são equipes superlativas, encantadoras, que nos deixam apaixonados.

Por agora é isso.